Dossiê sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto, Brasil

“Construir formas colectivas e solidárias de existência e organização”

Manuel Raposo - Quinta-feira, 4 Setembro, 2008

lizanda.jpgDesde há uma década que o MTSTdesenvolve, nas periferias de algumas das grandes cidades brasileiras, acções de ocupação de terrenos desafectados para aí instalar casas de trabalhadores e de desempregados que não têm tecto (ver dossiê do MV 4 e notícia sobre o MTST publicada neste site em 30 de Julho). Centenas ou mesmo milhares de famílias participam nestas acções que chocam com os interesses dos proprietários e fazem movimentar políticos e poderes policiais locais e nacionais.
Sobre o assunto, entrevistámos Lizandra Guedes, activista brasileira do MTST, por ocasião da sua passagem por Lisboa, onde participou numa sessão organizada em Julho pelo MV.

Porque preferem as periferias das cidades? Porque não ocupam edifícios vazios?

Esta escolha está calcada em alguns princípios organizativos e tácticas de luta. A periferia é onde estão as classes populares, portanto é lá que temos que nos organizar e modificar as condições de vida, propondo uma reforma urbana para além da ocupação de edifícios vazios e é preciso reconstruir a referência da esquerda nas periferias, enfraquecidas desde o refluxo petista [do PT, Partido dos Trabalhadores, no poder]. Além disso, lá estando, mobilizamos muito mais gente em torno da luta do que no centro, onde teríamos como vizinhos ou o comércio ou uma classe média que está longe de apoiar estes movimentos. Outro elemento importante é de carácter organizativo, já que os edifícios, por si só, já estabelecem um determinado tipo de sociabilidade, que pouco tem de comunitária. Num terreno, a criação de espaços colectivos e comunitários é muito mais fácil e já começa a ser pensada assim que se dá a ocupação, pois ela é elemento fundamental da construção da organicidade de um acampamento.

mtstmanif_72dpi.jpgComo conseguem organizar ocupações que movimentam centenas ou mesmo milhares de famílias?

Primeiramente, fazemos aquilo que chamamos de Trabalho de Base, que consiste em visitas a comunidades que têm na habitação um de seus maiores problemas. Nestas visitas, que em geral são acompanhadas pelas lideranças comunitárias do bairro, falamos do direito à habitação e das formas de luta para sua conquista. Ao longo destes encontros se constitui o grupo que fará a acção, que nos dias posteriores à ocupação será ampliada com a população vizinha ao acampamento, que sofre dos mesmos problemas e que chega até nós de forma espontânea, quando a notícia corre pelo bairro. A partir daí iniciamos a construção da organicidade do acampamento, fundamental para a organização das famílias e a formação política da base, indispensável para o fortalecimento da luta e para a formação de uma consciência que vá para além das conquistas económicas imediatas pelas quais procuraram o movimento.

Qual a composição social dominante das famílias de ocupantes?

As famílias são em sua esmagadora maioria compostas por trabalhadores e trabalhadoras desempregados, ou precarizados (que vivem de pequenos trabalhos temporários), que moram em favelas em situação de risco ou em pequenos cômodos alugados. Estas famílias, em geral compostas por 5 a 6 membros, têm em média uma renda de um salário mínimo por mês (o equivalente a 160 euros) e têm à sua frente mulheres, o que acaba por torná-las maioria em nossos acampamentos.

Que formas e métodos de organização são postos em prática?

O movimento se organiza a partir de colectivos políticos: a instância máxima hoje é o Colectivo Estadual, que propõe os debates estratégicos e linhas políticas do movimento, dialogando com os Colectivos Regionais, que são responsáveis pelos acampamentos, assentamentos e comunidades organizados em torno de Colectivos Internos de Acampamentos ou de Colectivos de Coordenadores de Núcleos Comunitários. Estes colectivos são auto-ampliados por seus próprios membros, a partir da discussão colectiva e todos aqueles que participarem destas instâncias devem estar engajados em tarefas políticas, que são distribuídas por sectores permanentes e “de acampamento”, sendo eles: Articulação Política, Jurídico, Projectos, Comunicação, Formação (composto por 3 colectivos – Educação, Formação Política e Cultura), Organicidade, Disciplina e Infra-estrutura, os três últimos existentes somente nos Colectivos de Acampamento. A partir desta estrutura organizativa e das linhas políticas e princípios do MTST é que se desenvolve toda e qualquer actividade do movimento.

mtst_72dpi.jpgHá certamente conflitos internos. Como lidam com isso?

Costuma-se imaginar que os acampamentos, ou qualquer outro tipo de organização que se pretenda revolucionária consiste em uma ilha de socialismo, em que as contradições do capitalismo simplesmente evaporam no ar, e isto, muitas vezes, faz com que percamos a capacidade de lidar de forma objectiva com estas contradições. Um acampamento não é um mar de rosas, nele estão presentes desde o primeiro dia diversas das contradições do capital e seus produtos, como a brutalização das relações humanas, a guerra dos pobres contra os pobres e o tráfico de drogas, por exemplo. Nosso desafio consiste justamente em construir formas colectivas e solidárias de existência e organização. Para tanto, apostamos na formação como um elemento fundamental do MTST, que é considerada não só como actividade de responsabilidade de um sector, mas como algo que se dá na própria experiência que cada um vive dentro de um processo de luta, pois sair de seu barraco na favela, em que você está sozinho com seus problemas e vir para um acampamento, participar de assembleias, fazer marchas para reivindicar seus direitos, gritar palavras de ordem, organizar seu grupo, comer na cozinha colectiva e participar dos saraus, onde se canta, se declama, se dramatiza e se dança a luta é a melhor forma de se perceber como pertencente a uma classe, enfrentando os conflitos a partir de uma re-significação de sua vida através da luta.

Como reagem às ocupações as camadas trabalhadoras mais estabilizadas?

Há um misto de solidariedade e acusações. Há aqueles que logo se identificam com a causa e passam a apoiá-la com a doação de alimentos, roupas ou mesmo contribuindo com actividades educativas e culturais que promovemos. Porém, uma parte considerável da população oriunda das classes populares que está mais “remediada” acaba por se identificar com as posições da classe dominante, discriminando os acampados, chamando-os de vagabundos e recriminando nossas acções através de um discurso extremamente reaccionário que vai da defesa da propriedade privada à legitimação das acções ilegais promovidas pela polícia. Os motivos para tal conduta vão desde aquilo que chamamos de “identificação com o agressor”, até um forte discurso promovido pela mídia de criminalização dos movimentos sociais.

mstbandeirapb_72dpi.jpgOs quadros do movimento como se formam?

Os quadros do movimento são oriundos de processos de luta, ou seja, todo militante se integra no movimento a partir de um processo em que esteve inserido primeiramente como acampado ou como um colaborador (neste caso trata-se em geral de pessoas vindas de sectores da classe média, principalmente universitária). Como já afirmei, apostamos que o próprio processo de luta tem um carácter formativo, tanto que nossa militância de base se forma predominantemente entre acampados que no processo de organização dos grupos dentro do terreno se candidatam para assumir a tarefa de coordenador. São mulheres e homens em grande parte sem nenhuma experiência política e que, a partir do envolvimento nas tarefas e de uma formação política dentro do próprio acampamento, acabam por se tornar militantes se inserindo nos colectivos políticos do movimento. A formação de militantes também é perpassada pelos cursos promovidos pelo colectivo de formação política que aborda tanto as análises fundamentais para a compreensão da sociedade capitalista, como a teoria revolucionária, passando por aspectos gerais de organização de nossa luta como o método de organização de acampamentos, fruto da sistematização de nossa experiência.

O movimento desenvolve acções para além do direito à moradia?

Certamente, pois o MTST encara o direito à moradia como uma conquista económica, que, apesar de ser grande problema social brasileiro, não traz por si só uma perspectiva revolucionária. Contudo, cabe ressaltar que o sonho da casa própria tem um poder de mobilização popular enorme, que lança as bases para uma luta de fundo político, a bem dizer pelo socialismo. Para tanto, além da conscientização política de nossa base social, iniciamos, ainda que timidamente, outras acções de mobilização comunitária, através de uma organização imbricada com o MTST chamada Associação de Comunidades Periferia Activa (APA), que tem trabalhado com a organização de lutas em comunidades já estabelecidas, como as mobilizações a favor da Tarifa Social de Luz (dez/2007), que reivindicava um desconto previsto em lei, mas “esquecido” pelas companhias de energia e a campanha organizada contra a alta dos alimentos, que para além de manifestações e campanhas de conscientização, está organizando, em conjunto com o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), uma feira de alimentos produzidos nos processos de lutas pela reforma agrária, vendidos a baixos custos na periferia. Estas ações têm como perspectiva a construção do poder popular como instrumento da transformação da realidade social, política, subjectiva e económica das classes populares, quiçá brasileira. Criar, criar Poder Popular!






2 Comentários a ““Construir formas colectivas e solidárias de existência e organização””

  1. Luana disse:

    Lizandra, com palavras sábias, contrariando o que é comum, caminhando antagonicamente com os PRÉ conceitos, fazendo cair por terra todo o senso elitista!

  2. Jales Domingues disse:

    Excelencia no que faz, e faz bem feito.
    Grande Mestra e Professora, suas aulas foram para nos na Uniitalo de grande Valia.
    Saudades.

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