Actividade do Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto divulgada numa sessão em Lisboa

Quarta-feira, 30 Julho, 2008

mtst_72dpi.jpgO Mudar de Vida levou a cabo em Lisboa, na tarde do passado dia 27 de Julho, um encontro em que foi divulgada a actividade do Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto, do Brasil. A exposição esteve a cargo de Lizandra Guedes, uma activista do Movimento que se encontrava em Portugal na altura e que explicou os propósitos e as acções concretas do MTST, ilustrados depois com a projecção de alguns vídeos.

O MTST desde há uma década que desenvolve, nas periferias de algumas das grandes cidades brasileiras, acções de ocupação de terrenos desafectados para aí instalar casas de trabalhadores e de desempregados que não têm tecto. Centenas ou mesmo milhares de famílias participam nestas acções que chocam com os interesses dos proprietários e fazem movimentar políticos e poderes policiais locais e nacionais.

O sistema é o da auto-organização e da cooperação entre as famílias, desde o planeamento da ocupação até à forma como se implantam no terreno e como põem a funcionar os diferentes serviços necessários à comunidade. A palavra de ordem “Criar, Criar, Poder Popular”, que serve de título a um dos DVDs realizados pelo MTST, sintetiza bem esta realidade, na qual assenta o esforço de consciencialização política dos ocupantes.

Em acampamentos pobríssimos, regra geral constituídos por tendas feitas de plásticos negros, a maioria das pessoas conta, apesar disso, com melhores condições do que antes – não apenas físicas (excepção feita aos que abandonaram casas por não as poderem pagar), mas também de vida colectiva. Organizam-se para gerir todas as necessidades comuns: disposição das tendas no terreno, cozinhas colectivas, instalações sanitárias, recolha de lixos, parques infantis, locais de festa e reunião – tudo é montado e mantido com o trabalho de todos. Os ocupantes dividem-se em grupos, com coordenadores eleitos e revogáveis em qualquer momento, as assembleias de grupo são diárias e as assembleias gerais são muito frequentes. São escolhidos também responsáveis gerais para tratar ou organizar a discussão das diferentes dificuldades, desde a segurança às disputas internas.

Nem tudo são rosas nestas comunidades. O tráfico, as rixas, o álcool acompanham frequentemente a condição destes proletários, na sua maioria gente sem emprego ou só com trabalhos precários – que ainda por cima sofrem a hostilidade não apenas dos poderes e das classes ricas, mas também das camadas trabalhadoras que dispõem de vida mais estável e que tendem a considerá-los simples “vagabundos”. Mas o esforço comum também nesse aspecto lhes traz outra perspectiva sobre o modo de responder aos problemas.

As ocupações são o ponto de partida para a reivindicação de casas dignas. Por isso, os ocupantes dos terrenos se dirigem, normalmente em marchas colectivas, às autoridades locais para exigirem respostas às suas necessidades: garantia de casas para todos e de condições mínimas de habitabilidade nos acampamentos. Por vezes estas acções de protesto procedem ao bloqueio de estradas e ruas urbanas chamando a atenção da restante população sobre os seus problemas.

Regra geral, estes acampamentos, têm curta duração, apenas alguns meses, uma vez que os proprietários movem imediatos processos de expulsão a que a Justiça responde de forma milagrosamente rápida abrindo caminho à intervenção do poder político e policial. A resistência aos despejos é difícil e normalmente eles ocorrem sem violência dada a desproporção de forças.

Mas, de qualquer modo, os milhares de pessoas envolvidas nas ocupações fazem, por vezes durante meses, a experiência de uma acção colectiva que lhes dá a medida da força do povo unido. Uma canção que acompanha estas iniciativas diz “se o povo soubesse a força que ele tem, não aceitava desaforo de ninguém”.

Durante a apresentação, os presentes, mais de uma vintena de pessoas, colocaram perguntas a Lizandra Guedes e travou-se debate sobre vários dos aspectos da acção do MTST. Hoje que o capitalismo globalizou o seu poder de exploração, dar a conhecer formas de acção que movimentam milhares de pessoas da camadas mais exploradas é seguramente uma contribuição para que as classes trabalhadoras difundam entre si as experiências de luta, passo indispensável para poderem vir a articular a resistência ao capital.






4 Comentários a “Actividade do Movimento dos Trabalhadores Sem Tecto divulgada numa sessão em Lisboa”

  1. Renato disse:

    O problema do Brasil poderia ser facilmente resolvido com a instalação de um sistema de financiamento de moradias, a longo prazo. A questão é, antes de tudo, demográfica. São pessoas sem trabalho ou com trabalhos precários porque são filhos de pais sem responsabilidade, dados a terem muitos filhos, a se drogarem, beberem muito, se encrencarem, enfim, desperdiçarem as possibilidades que a vida apresenta. Na mesma linha seguem os filhos que não se interessam em estudar, em trabalhar, em ter responsabilidades. Comumente muitíssimo mau educados, são violentos e aproveitam qualquer possibilidade que se apresente para tosquiarem, agredirem e ofenderem os trabalhadores que os cercam. É de tal camada que vêm os grupos criminais que cometem horrores com os trabalhadores. Conviver nesse meio é um terror. Não sei que sentido tem um discurso de esquerda se não trabalha a responsabilidade de cada um sobre sí e sobre o mundo em que vive.

  2. João Bernardo disse:

    Dois séculos depois de o próprio Malthus ter abandonado as ideias que defendera acerca do “excedente populacional”, é curioso observar como elas continuam a servir de alibi àqueles que pretendem atirar as responsabilidades da pobreza para cima dos pobres. Há sem dúvida muitas pessoas, entre os pobres, os ricos, e os assim-assim, que desperdiçam as oportunidades que a vida lhes apresenta. Mas não creio que seja isto o que se passa com quem luta por uma sociedade nova. Neste caso, os trabalhadores sem tecto que ocupam terrenos abandonados e reivindicam o seu direito de ter um lugar onde morar em vez de desperdiçar oportunidades estão a criar oportunidades, estão a ampliar a vida, a deles e a de todos os que souberem aprender com eles. Quanto à alegada violência exercida pelos acampamentos de sem tecto sobre as pessoas da vizinhança, não existem quaisquer casos registados. Os filhos dos sem tecto são sem dúvida pouco instruídos, as escolas públicas que servem as favelas não beneficiam das condições dos colégios dos meninos ricos, mas a respeito de escolaridade faço notar ao Renato que não se escreve “mau educados” mas “mal educados”.

  3. Renato disse:

    Não possuem os pobres responsabilidade alguma pela sua situação? Acaso existe no Brasil o movimento dos trabalhadores sem carro? O que falta é a implantação de um sistema de financiamento, tal qual existe para os automóveis, de forma que todos possam comprar casas com a mesma facilidade com que compram os carros. De resto trata-se de trabalhar o planejamento familiar, de se obter um mínimo de racionalidade na condução da própria vida. Quem é culpado pela pobreza de um garoto que advém de uma mãe com sete filhos e nenhuma responsabilidade? Muitas das vezes onde se enxerga pobreza material o que há realmente é pobreza espiritual, falta de auto controle, de moralidade, de orientação, de responsabilidade. Não é à toa que as igrejas estão cheias e os movimentos esquerdistas esvasiados. As pessoas querem que as ensine a ter uma orientação, um sentido pra vida e não quem as empurre mais para o abismo com uma pregação na qual sempre surgem como desprovidas de culpa, de responsabilidade sobre o mundo que as cerca. Certamente as escolas que servem os pobres não está no mesmo patamar da que serve os ricos. No entanto, há de se lembrar que o pouco que é oferecido é negado por ampla maioria dos jovens pobres, basta olhar para a aparência decrépita das escolas, fruto da depredação e do vandalismo. Retomo minha questão: que sentido tem um discurso de esquerda se não trabalha a responsabilidade de cada um sobre si e sobre o mundo que o cerca? No entanto, compreende-se que seja fácil romantizar a pobreza, o pobre e seus movimentos quando não se vive nesse meio e, portanto, se tem uma concepção meramente teórica do que seja tal.

  4. Manuel Monteiro disse:

    É fácil falar assim da pobreza com o papo cheio. E já agora, senhor Renato: se estão as igrejas cheias e os movimentos esquerdistas vazios, como diz, porque não diminui a pobreza e a violência; e, pelo contrário, crescem cada vez mais? É culpa dos pobres que os ricos estejam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres? Aqui tem razão. São culpados porque ainda não fizeram o que todo o explorado deve fazer: em vez de entrar nas igrejas e nos futebóis deviam integrar os movimentos sociais que ponham em causa a propriedade privada e pô-la ao serviço da comunidade, retirando-a do domínio de meia dúzia de parasitas que vivem à custa da exploração de quem trabalha.
    O senhor sabe que, uma pessoa desgarrada, quando integra os movimentos sociais que lutem pelos seus interesses, transforma-se numa pessoa com outra cultura política e social? Mas transforma-se também numa pessoa mais consciente que começa a aperceber-se da origem das suas desgraças. Então a sua revolta manifesta-se, não através do roubo e da violência individual, mas da acção colectiva e apontada a contestar a origem dos males da sociedade: o capitalismo. Ora é isto que todos os Renatos do mundo não querem.
    E não me venha dar lições de cátedra sobre romantizar a pobreza:nasci em Trás-os-Montes em 1948, no meio da maior pobreza – passei fome – com o dominio da igreja, dos ricos e da polícia do Salazar a sufocar-nos. Odeio
    aqueles que fazem tratados sociais sobre os pobres e a pobreza para branquear a responsabilidade dos ricos sobre as gritantes desigualdades sociais. No entanto, os poderosos bem podem recorrer a melhor “teórico” do que o senhor Renato: é que são tão indigentes os seus argumentos que estes se viram contra si e contra quem lhe encomendou o sermão.

    Manuel Monteiro

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