Astúcias do dispositivo mediático

Algumas técnicas de fabricação de noticiários

Pedro Sanches Duarte - Segunda-feira, 30 Junho, 2008

O indivíduo contemporâneo encontra no dispositivo mediático um sistema de referências orientador da sua prática quotidiana, sendo precisamente aí que germinam as suas representações do mundo. Apesar desse dispositivo lhe revelar uma microscópica parcela do mundo em que vive – na medida em que os médias têm por missão dissimular o que não convém mostrar do real: as hierarquias, a miséria, a desumanidade –, o espectador julga sempre aceder à totalidade desse mundo. Por outro lado, a informação a que tem acesso inibe-o de confrontar o modelo de sociedade em curso.

Prova disso são as breves alusões que os noticiários televisivos diariamente fazem à barbaridade a que se encontra exposta uma parte colossal da humanidade, vítima da fome, da exploração, das guerras, das pandemias e dos genocídios, alusões essas que obedecem ao propósito de não provocar no espectador qualquer indignação, qualquer revolta, qualquer princípio de acção para ousar inverter o drama. Talvez possamos encontrar nesta apatia organizada, que inibe o espectador de se impressionar pela evidência do horror, um triste paralelo na Alemanha nazi, apática e indolente perante a loucura do III Reich.

Existem várias técnicas, empregues nos noticiários, para gerar no espectador um desprezo profundo pela miséria e o infortúnio a que está sujeita grande parte da humanidade. Vejamos apenas as mais evidentes:

1) Destacar, nas notícias, não quem padece da perversa organização da sociedade, mas quem sofre de vicissitudes fortuitas: vítimas de acidentes naturais ou rodoviários, de raptos, de roubos. Destaca-se o puro espectáculo do acidente para ocultar todo o sangue silenciosamente derramado por causa das injustiças sociais que anualmente dizimam milhões de humanos. Mantém-se assim inquestionável a sociedade concreta em que vivemos, iniquamente organizada para servir os interesses dos barões do planeta neoliberal – são aliás os mesmos que reinam despoticamente sobre o feudo mediático: eles determinam não apenas aquilo que se faz, mas também o que se deve escrever e pensar sobre o que foi feito; a figura sinistra do III Reich continua perfeitamente actual.

2) Tratar as vítimas dos dramas com distância e estranheza, num tom falsamente sério, de modo a que o espectador nunca se possa identificar com elas. Imigrantes em favelas degradadas, crianças famintas e doentes, deslocados de guerra, vítimas de bombardeamentos ou trabalhadores explorados são apresentados como casos curiosos mas distantes, com os quais o espectador jamais deverá identificar-se. A compreensão do outro torna-se para ele impossível. Exercitado pela publicidade hedonista a identificar-se com os modelos imaculados que, nas revistas, nos painéis das ruas ou na televisão, lhe sugerem o champô, o telemóvel e os jeans que usa no seu quotidiano, o espectador não pode ver naqueles seres indigentes senão criaturas em radical dissonância com o higienismo ambiente.

3) Irradiar sorrisos, para falar, elogiosamente, de trivialidades inofensivas (o golo vitorioso de Cristiano Ronaldo, o último concerto dos Roling Stones, a fortuna do rei Mourinho, mais um desfile de moda em Milão…), que deste modo aparecem ao espectador como o principal conteúdo a reter de todo o noticiário. Também abundante no discurso publicitário, o sorriso aprovador do apresentador do noticiário tem por missão dissolver a consciência dos dramas que se poderia ter constituído, na mente do espectador, a partir das brevíssimas referências que a eles foram feitas em notícias anteriores.

4) Terminar os noticiários em harmonia com o espectador, num tom ameno, com motivos de entretenimento quase circense (a colecção de óculos de Elton John, as bebedeiras de Britney Spears, futebol, humor, o novo bebé panda do Zoo de Pequim, o homem mais velho do mundo, a maior abóbora dos Amiais de Baixo), para mostrar ao espectador que o mundo tem muito mais para dar do que os dramas ‘aborrecidos e sem graça’ dos miseráveis deste mundo. E que o importante deste mundo, aquilo que se deve reter dele, não são esses dramas, que jamais, por questões estratégicas, são mencionados no final dos noticiários – isso poderia torná-los tema de reflexão e de conversa, deixando perigosamente no centro das atenções os barões do planeta neoliberal e as consequências socialmente irresponsáveis, mas altamente rentáveis, das suas negociatas.

5) Complementar as notícias com a propaganda publicitária, para recordar ao espectador os seus verdadeiros modelos de identificação (é esta a grande função social da publicidade): a loira elegante da L’Oreal, o macho sedutor do Baccardi, o gestor de sucesso da Mercedes, a dona de casa competente da Omo, o grande aventureiro da Camel, o homem eternamente jovem da Levis, a morena irresistível da Chanel, o adolescente pseudo-subversivo da Vodafone. Estes modelos, operando por contraste, consolidam a estranheza, a repulsa e por vezes até mesmo o nojo que deverão provocar no espectador os corpos famintos, repletos de moscas, de crianças africanas que não têm o que comer, os corajosos Sem Terra brasileiros, esgotados de lutar contra a crueldade do latifúndio, os cadáveres de senegaleses que deram à costa europeia enquanto tentavam escapar à patrulha marítima espanhola, os mineiros chineses depois de mais um desabamento numa mina, as crianças do Bangladesh exploradas em fábricas de biscoitos para o mercado europeu ou os outros duzentos milhões de crianças que a Organização Internacional do Trabalho estima serem vítimas de exploração laboral no mundo…

Componente vital do dispositivo mediático, os noticiários modelam a consciência do real: são o mundo que é permitido ver. Representando a humanidade de acordo com interesses específicos, eles legitimam as relações sociais vigentes. O espectador aprende assim a assimilar o mundo neoliberal, e não a confrontá-lo. Ele é convocado a não interferir no desenrolar ‘lógico e natural’ dos acontecimentos, devendo manter-se afastado das decisões que determinam o seu próprio quotidiano.






4 Comentários a “Astúcias do dispositivo mediático”

  1. João Bernardo disse:

    Caro Pedro Sanches Duarte
    O seu artigo demonstra uma grande lucidez, e eu não teceria estes comentários sobre uma passagem que, no contexto, é perfeitamente secundária, se ela não tivesse implicações muito vastas. Você escreve que a população do Terceiro Reich estava «apática e indolente». Ora, esta passividade popular é um mito em que se alicerçou a tese da “culpabilidade alemã”, muito útil aos anglo-americanos para fazer esquecer que Hitler subira ao poder com os aplausos de várias democracias e contara até Setembro de 1939 com a benevolência dos governos de Londres e de Washington. Este mito foi igualmente útil aos governantes soviéticos, que pouco antes do começo da guerra haviam assinado com o governo nazi os tratados de Não-Agressão e de Amizade, Cooperação e Demarcação e haviam entregue aos campos de concentração do Terceiro Reich os antifascistas alemães presos como desviacionistas nos campos de concentração soviéticos; e que terminada a guerra, sob o pretexto da punição colectiva, espoliaram o mais possível a porção da Alemanha que lhes coube. Mas a tão propalada passividade da população alemã não passa de um mito.
    Em primeiro lugar, logo que Hitler chegou à Chancelaria um elevadíssimo número de pessoas foi posto em campos de concentração ou levado ao exílio, o que atesta a disposição de luta destes homens e mulheres e não a propensão à passividade.
    Em segundo lugar, apesar de todos os seus horrores, os campos de concentração não conseguiram vergar o ânimo dos prisioneiros. Os comunistas encabeçaram uma resistência organizada dentro dos campos de organização, que atingiu um colossal grau de eficácia. Acerca desta resistência devem ler-se duas obras que conheço na versão francesa: Eugen Kogon, L’État SS. Le Système des Camps de Concentration Allemands, Paris: Seuil, 2002 e Hermann Langbein, La Résistance dans les Camps de Concentration Nationaux-Socialistes, 1938-1945, [Paris]: Arthème Fayard, 1981. O mesmo tema é tratado numa perspectiva muito crítica dos comunistas por David Rousset, L’Univers Concentrationnaire, Paris: Pavois, 1946.
    Em terceiro lugar, e passando agora à população em liberdade, a hostilidade do operariado fabril ao nazismo revela-se ao sabermos que nas últimas eleições livres para os órgãos de empresa, realizadas já depois de Hitler ter alcançado o poder, os candidatos nacionais-socialistas obtiveram uma percentagem ínfima de votos, menos de 1% segundo Jean Pierre Faye, Langages Totalitaires. Critique de la Raison – l’Économie – Narrative (ed. corr.), Paris: Hermann, 1980, pág. 556 n. 708.
    Em quarto lugar, de maneira subreptícia, e às vezes nem tão subreptícia como isso, a população alemã manifestava com muitíssima frequência a sua aversão ao regime nazi e, nomeadamente, às medidas racistas. Devem ler-se a este respeito duas obras fundamentais. Uma foi escrita por um importante elemento da extrema-direita alemã que discordava de Hitler porque defendia um fascismo de carácter social, à maneira de Mussolini, e não de carácter racial. Conheço esta obra na versão francesa: Ernst von Salomon, Le Questionnaire, [Paris]: Gallimard, 1993. A outra obra consiste no minucioso diário de um intelectual judeu, que conheço na versão inglesa: The Diaries of Victor Klemperer, em dois volumes, uma edição organizada por Martin Chalmers e publicada em Londres por The Folio Society em 2006. Existe uma versão em língua portuguesa editada no Brasil.
    Em quinto lugar, mesmo entre a geração jovem, crescida e formada sob o Terceiro Reich, surgiram manifestações de hostilidade ao regime, tanto entre filhos da elite como entre os adolescentes das camadas populares urbanas. A este respeito pode consultar-se o artigo «Children» em I. C. B. Dear e M. R. D. Foot (orgs.) The Oxford Companion to the Second World War, Oxford e Nova Iorque: Oxford University Press, 1995.
    Finalmente, a seguir à vitória aliada corria em certa extrema-esquerda alemã a tese de que só não houvera uma insurreição popular antinazi nos últimos dias da guerra porque ela havia sido impedida ou pelos norte-americanos ou pelos soviéticos. Encontram-se ecos da primeira alternativa em Stig Dagerman, Outono Alemão, Lisboa: Antígona, 1991, e da segunda alternativa no célebre romance de Simone de Beauvoir, Les Mandarins (um título intraduzível porque no contexto do livro a palavra não significa o que parece).

  2. Pedro Sanches Duarte disse:

    Caro João Bernardo,

    Obrigado pelo seu reparo enciclopédico que me pareceu de enorme utilidade, já que evidenciou uma ideia raramente tida em conta: a vigorosa hostilidade interna ao regime nazi, ou seja, a resistência em diversas frentes à política do Reich. Permito-me acrescentar ao seu reparo que desconheço a existência de alguma sociedade, no presente como no passado, onde não tenham existido enérgicos conflitos internos em torno da proposta dominante de organização social, isto é, em torno do poder.
    Creio, no entanto, que esses reparos não entram em conflito com a ideia de que a força do aparelho ideológico nazi teve o terrível mérito de organizar a apatia e a indolência com um elevadíssimo grau de sofisticação. Um exemplo extremo dessa apatia/indolência veio recentemente a público quando vários jornais publicaram fotografias de Auschwitz (confira em http://g1.globo.com/Noticias/0,,GF49618-5602,00.html ), mostrando um grupo de mulheres que trabalhavam na área de comunicações da SS, divertindo-se num grande regabofe enquanto milhares de famintos morriam ali ao lado nos campos de concentração.
    Parece-me, para finalizar, que em qualquer sociedade a apatia e a revolta caminham juntas, lado a lado, enfrentando-se por vezes, sem que nenhuma derrote definitivamente a outra, ainda que a tendência, infelizmente, seja sempre para o predomínio da primeira sobre a segunda.

  3. Manuel Frazão disse:

    Caros Pedro Sanches e J. Bernardo:
    Ambos têm razão nos comentários e argumentos que tão lucidamente apresentam. Em relação a PS acrescentarei, para abono da sua tese, que será de todo útil e conveniente a leitura de um livro, que muita polémica tem gerado, intitulado “CLUBE BILDERBERG, OS SENHORES DO MUNDO”, da autoria de Daniel Estulin e editado em Portugal por “Temas e Debates”. Se metade do que este autor escreve for verdadeiro, então estamos mesmo numa verdadeira anestesia totalitária imposta por uma centena de controladores mundiais que talham toda a sociedade a seu belo prazer e conveniência. Pensar que os média só editam o que estes “senhores do mundo” querem; que a política mundial e local é por eles estabelecida em reuniões secretas; que os principais jornais, televisões e rádios estão nas suas mãos através de toda uma engenhosa teia financeira; que os políticos, os banqueiros, os jornalistas e os variados “opinadores” das diversas áreas – economia, política, saúde, marketing, moda, educação, etc. – fazem parte deste complot; que muitas das desgraças que assolam o mundo se devem à maquiavélica actuação desta “tribo” que tem, como único propósito, a instauração de um Governo Mundial, deixa-me deveras apreensivo e preocupado com o que “aí vem”.
    Tomar conhecimento de que não existe imprensa livre e que alguns dos principais acontecimentos sucedidos no passado século – p. ex., Guerra das Malvinas, morte de Aldo Moro, morte de Ali Bhutto (pai), xá do Irão, caso de Watergate e, por certo, as crises petrolíferas e outras – tiveram uma explicação nos meios informativos completamente diversa com a realidade, só pode deixar-nos a sensação de que os nossos filhos e netos vão sofrer ainda mais que a minha geração sofreu. A interessante obra de A. Huxley, “Admirável Mundo Novo”, e a já ultrapassada criação de Orwell, “1984”, constituem pequenas amostras do que está a ser gerado por estes “pais do futuro”. E nada disto é ficção, infelizmente…
    Quanto a JB, tendo razão no que afirma, mais não faz de que constatar uma evidência. Não há, através da História, nenhuma sociedade que não se tenha confrontado com uma oposição interna às políticas seguidas por quem detém o poder no momento. Sejam ditaduras, democracias ou quaisquer outras formas de governo, há sempre resistências por parte dos que “estão de fora”. E a minha esperança é a de que “os senhores do mundo”, os bilderbergs, sejam denunciados por homens não comprometidos, pelo menos, com estes criminosos modernos e se consiga uma esperança de melhor mundo.

  4. Filipe Sanches disse:

    Correndo o risco de despertar consciências que não são desejadas parece-me necessário reforçar a opinião aduzida por JB, talvez por mais um prisma e em relação com o que foi dito ab initio por PS.
    Tento fazê-lo procurando evitar aquilo a que alguns chamam erradamente de relativismo, quando na prática se trata de um pós-modernismo subjectivista. Ou seja, quero evitar reduzir o meu argumento a um ponto em que se fique com a impressão que defendo, coisa que não faço, possível, compreender o mundo sendo qualquer opinião convencionável passível de instituir a realidade. Isto, não que em potência não se possa convencionar o que bem entendermos, mas porque a minha opinião é que no presente sistema axiomático, que estende fronteira para lá do político, vivemos numa constrangedora antinomia se aceitarmos como pressuposto que em ordem de uma convencionalização possível, toda a opinião é funcional. Creio que a prática poderia sem esforço demonstrá-lo pelo que abstenho-me nesta altura de o fazer.
    O que retenho da apresentação de PS, à qual não me oponho em todo, é que os mídia a soldo de interesses corporativistas, fascistas, neo-liberais manipulam, controlam e deturpam a opinião pública generalizada, que a eles é sensível. Esta atitude perante o consumidor, o público, o povo, em última instância a nós os quatro e quem nos lê, é altamente desonesta, e representa um tal nível de sofisticação que é uma instância em muito semelhante ao III Reich, dir-se-á até com facilidade que qualquer coisa comparável a esta instância é imediatamente reprovável. Acrescenta-se ainda, menos ponderadamente, como parece razoável concluir pela apresentação de JB que, afinal a semelhança entre tão condenável aspecto da história da humanidade residia numa apatia generalizada induzida hoje como então. apresento os seguintes argumentos que a serem desapontados poderão, estou certo, trazer-me a tão desejável lucidez a que aludem.

    Correndo renovadamente o risco de despertar consciências que não são desejadas insisto como necessário reforçar a opinião aduzida por JB, nestes sentidos:

    a) Aparentemente parece ser apenas enquadrável à oposição ao III Reich o argumento que historicamente foi debatido pelos autores por JB citados.

    b)Parece opinião consensual até este ponto na tertúlia mediática em que nos encontramos que as únicas perspectivas apresentadas, são as únicas apresentáveis sobre os mídia.

    c) O mesmo será possível dizer-se em relação às ideias de apatia e revolta. Apresentadas como paralelas e ocasionalmente opostas, sendo uma delas prevalente, não se aponta uma possível extensão da sua concorrência.

    Quanto à alínea a) sobra dizer o seguinte:
    A negação da existência de alguma sociedade, no presente como no passado, onde não tenham existido enérgicos conflitos internos em torno da proposta dominante de organização social, isto é, em torno do poder, é posteriormente aduzida. O que permite compreender o melhor alcance das observações de JB. Perguntar-se-á então porque motivo devemos considerar que a prevalência manipuladora dos mídia não se confronta episodicamente com a sua revolta interna e externa?

    Quanto à alínea b) e c) novas questões parecem despontar, ou seja, concomitantemente com a alínea anterior, não fará o mídia mais que um papel conservador e de manutenção do poder instituído, e se não porquê, se sim qual? e em que medida o poder absoluto da manipulação só encontra adversário na revolta e não na apatia? ou, porque motivo nos encontramos em dilema entre apatia e revolta e não “consenso” e “dinâmica” (aqui meramente tomados e.g.) ou ainda mais profundamente, o que acontece na apatia da revolta e na revolta da apatia?

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