EUA: Apoiar, consolidar a luta de classes

Editor / John Catalinotto, Workers World — 31 Outubro 2020

Construir a unidade dos trabalhadores para os tempos que aí vêm

As próximas eleições nos EUA colocam as classes trabalhadoras diante de um dilema: ou alhear-se do voto e deixar que Trump ganhe um segundo mandato, ou empenhar-se na derrota de Trump e entregar o poder a um outro representante das mesmas classes dominantes. Mas se este é o resultado inevitável em termos gerais, o caminho que leva a um ou outro dos desenlaces possíveis não é indiferente para a massa trabalhadora, nos EUA e no mundo.

Desde logo, porque uma derrota de Trump não será o mesmo que uma vitória de Trump. Uma derrota significará um bloqueio da via fascizante que chegou à presidência há quatro anos; e uma vitória significaria a consagração dessa mesma via. Depois, porque a mobilização para desfeitear o bando de Trump, apesar de todas as limitações de um acto eleitoral, abre caminho a uma consciencialização política que não existia em muitos actos eleitorais anteriores e em muitos eleitores.

Finalmente, e acima de tudo, porque esta mobilização resulta e é o prolongamento — muito para lá de qualquer esforço propagandístico dos candidatos — das fortes acções de rua contra o racismo, por todo o país, da rejeição da política sanitária assassina do governo de Trump, da miséria que a crise económica leva a milhões de famílias norte-americanas.

Importa, pois, considerar os frutos que a luta de classes possa colher em termos de unidade dos trabalhadores, no sentido de suplantar divisões partidárias e étnicas — que permitam, por sua vez, passos futuros de confronto com o próprio sistema capitalista-imperialista. Desenvolver e prolongar as lutas de massas dos últimos meses surge como o caminho natural e seguro para afirmar uma via de acção política independente para os trabalhadores norte-americanos.

Uma derrota de Trump não terá consequências apenas nos EUA. As forças de extrema-direita e abertamente fascistas que levantam cabeça pelo mundo têm tido o apoio, no mínimo moral e político, do governo dos EUA e dos meios fascistas que se multiplicam à sua sombra. É de esperar, portanto, que aquelas forças sofram um revés — no Brasil de Bolsonaro, na Itália de Salvini, na França de Le Pen, na Espanha do Vox, no Reino Unido do Brexit e mesmo no Portugal de Ventura. Mesmo que o decisivo seja, evidentemente, a luta política interna em cada um destes países, a perda do incentivo externo dado a tais forças à conta de Trump não é de desprezar.

Como destaca o texto que divulgamos, publicado no semanário comunista norte-americano Workers World, as acções de massas que se desenrolam em torno da eleições vão para além das eleições em si, na medida em que medem a possibilidade de edificar a unidade das classes trabalhadoras para os próximos tempos. Representam, portanto, um impulso à luta de classes — condição para que haja uma oposição consequente a qualquer um dos partidos capitalistas que vier a tomar posse.

 

PARA LÁ DA ELEIÇÃO, LUTA DE CLASSES

John Catalinotto, Workers World

O que torna especial a eleição de 3 de Novembro nos EUA é que ela se tornou uma arena para a luta de classes.

A votação ainda é dominada pelo grande capital. Nenhum partido com possibilidade de vitória representa os reais interesses dos trabalhadores, nos EUA ou no mundo. Os partidos Republicano e Democrata servem uma pequena elite de bilionários. Ambos usam a polícia dentro dos EUA e o Pentágono no exterior para manter o domínio dessa classe.

No entanto, o que torna o resultado da votação vital é que ela mede a possibilidade de construir a solidariedade da classe trabalhadora nos tempos que aí vêm.

As palavras são menos importantes do que as acções, mas Trump usou uma enxurrada de termos racistas para mobilizar a escória mais atrasada e perigosa da sociedade norte-americana. O seu constante arrazoado enche a sarjeta do racismo, da xenofobia, da misoginia, do fanatismo contra pessoas LGBT, e dos insultos e desdém por dezenas de milhões de pessoas com deficiência e dos milhões que estiveram ou estão na prisão.

Um referendo sobre o racismo

Esta eleição representa um referendo sobre o racismo. Um voto esmagador contra Trump, um voto anti-racista, criaria pelo menos a possibilidade de construir uma luta unificada da classe trabalhadora, mesmo que não consiga esvaziar a sarjeta do fanatismo.

Essa luta pode ambicionar ganhos reais para todos os trabalhadores nos Estados Unidos e trazer esperança para milhões de pessoas ao redor do mundo que sentem a bota imperialista nos seus pescoços. Para ser claro, para o Workers World, a classe trabalhadora inclui todos aqueles que precisam de trabalhar para sobreviver: aqueles que têm empregos tradicionais e também empregos temporários, desempregados, estudantes que desejam empregos futuros, trabalhadores da economia informal, incluindo profissionais do sexo, trabalhadores aposentados. Eles são de todas as cores e nacionalidades, nascidos nos EUA, migrantes — com ou sem papéis — de todos os géneros e identidades de género, de todas as sexualidades, de todas as idades, com ou sem deficiência. Esta é a nossa classe.

Que não haja ilusões. O candidato democrata demonstrou abertamente que é um servidor fiel de Wall Street e dos bancos, e que seu partido levará a cabo os interesses estratégicos do imperialismo norte-americano em escala mundial. O facto de a equipa de Joe Biden / Kamala Harris fazer isso de forma mais eficiente e científica do que a equipa de Donald Trump / Mike Pence não torna os democratas menos ameaçadores para os povos do mundo e para a classe trabalhadora nos Estados Unidos.

É razoável, contudo, que poucos considerem os dois partidos exactamente iguais para efeitos da sua própria sobrevivência. O Partido Democrata tem uma base que assenta nas várias nacionalidades. Também aprovou na Câmara dos Representantes a Lei dos Heróis [parte da legislação de resposta à pandemia], que garante alojamento e alimentos a 30-50 milhões de pessoas. Os republicanos recusam qualquer ajuda aos desempregados. Os republicanos também ameaçam o direito ao aborto legal e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e negam a dezenas de milhões de pessoas os cuidados de saúde. Para não falar do tratamento calamitoso de Trump à crise COVID-19.

Dezenas de milhões de pessoas, por fúria, medo ou ambos, vão votar em Biden porque não suportam a retórica racista de Trump ou porque precisam de sobreviver. Estão no seu direito.

Defender o direito de voto

E esse direito deve ser defendido. A ameaça de Trump de impedir que grandes sectores da população votem — ou de impedir a contagem dos seus votos — também torna esta eleição especial. A sua ameaça excede a “usual” supressão do voto de pessoas que já estiveram presas e a supressão histórica de eleitores que priva os afro-americanos e outras pessoas de cor de seu direito de votar. É um ataque frontal aos direitos democráticos.

Com este ataque, o gangue de Trump transformou a eleição numa arena de luta de classes. Aqueles que lutam contra o racismo e todas as formas de discriminação devem agora ajudar na defesa do direito ao voto, ainda que a escolha permaneça entre dois representantes da classe dominante capitalista.

A primeira linha de defesa será evitar que bandos fascistas pró-Trump, incluindo as forças policiais, bloqueiem as pessoas que desejam votar. Essa supressão eleitoral será dirigida principalmente aos negros, latinos e outros sectores da população que eles acreditam que votarão contra Trump. A segunda linha de defesa é garantir a contagem precisa dos votos, metade dos quais chegará por correio ou votação antecipada. A terceira linha é impedir um golpe de Estado pró-Trump.

Organizações de trabalhadores discutem a possibilidade de uma greve geral para impedir o golpe de Trump, o que é um sinal encorajador de uma luta de massas nascente. Os milhões de pessoas de várias origens nacionais, liderados por afro-americanos, que saíram às ruas para lutar contra os assassinatos cometidos pela polícia e primeiro colocaram Trump na defensiva, também gritaram “Greve geral!”

Uma mobilização que junte, em acção comum, estas forças progressistas pode marcar o nascimento de um instrumento de luta de classes unida.

As sondagens (que obviamente não dão nenhuma garantia) colocam o actual governo — ele próprio dividido por contradições e infectado com o coronavírus bem como com a sua própria corrupção e incompetência — em desvantagem no total dos votos populares, ainda mais do que em 2016. É por isso que Trump ameaça com a supressão de eleitores para tentar roubar a eleição fazendo uso do Colégio Eleitoral, tendencioso e antidemocrático.

Seja qual for o resultado, a eleição só pode abrir a próxima fase de luta. Mais do que o voto exacto, o importante será a unidade da classe trabalhadora que possa ser mobilizada nas ruas e nos locais de trabalho. Isto pode começar pela defesa do direito de voto e desenvolver-se para enfrentar a dominação capitalista da economia e de toda a sociedade. E terá de se opor a qualquer partido capitalista que tomar posse.

Que o referendo contra o racismo marque o início de uma luta pelo socialismo, o único caminho com futuro para a ampla classe trabalhadora, nos EUA e no mundo.


Comentários dos leitores

Teresa Alves da Silva 1/11/2020, 12:09

O artigo do jornalista militante,J.C., bem como a introdução do Editor deste jornal são muito claros e esclarecedores , quanto ao que se vive e apresenta nos USA.

O resultado das eleições não é indiferente para o povo americano e povos do Mundo.
Embora os candidatos, qualquer deles,não representem o interesse da massa trabalhadora americana , o resultado e toda a movimentação social e politica em torno , torna possível a génese de movimentos de solidariedade da classe trabalhadora, enquanto tal.

Apreciei , especialmente, a definição de classe trabalhadora do Workers World.

Talvez se possa afirmar que, após todo este processo de movimentação de massas populares, que terá no próximo dia 3 de Novembro uma prova , com os votos presenciais e apuramento de resultados, "nada será como dantes" neste país e no mundo

afonsomanuelgoncalves 1/11/2020, 15:50

Duas quadrilhas de malfeitores desde a independência dos Estados Unidos, confrontam-se nas eleições presidênciais de acordo com a sua Constituição. A mais nenhuma força política é autorizada outra alternativa e todos os oponentes aceitam de bom grado este despique frenetico que excita acaloradamente toda a imprensa americana ( incluindo a Workers world) e europeia pró-americana. No meio desde vendaval impressionista , sobretudo, os cidadãos europeus são obrigados a aceitar o discurso politicamente correcto sob pena de serem excumungados do púlpito oficial. Perante este panorama testamentário devemos deixar ao povo americano as escolhas e movimentos sociais que mais lhe aprouverem realizarem a favor dos seus direitos e da sua liberdade e ficarmos absolutamente solidários com as batalhas que têm pela frente.


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