Não será a campanha de Biden a derrotar Trump

António Louçã — 22 Outubro 2020

Tudo depende da mobilização popular

Perante Hillary Clinton, Trump ganhou o poder com três milhões de votos a menos. Perante Joe Biden, poderá conservar o poder com uma diferença ainda maior, se lhe deixarem as mãos livres para organizar o seu golpe de Estado. O desfecho da contenda não depende de mais um ou outro voto que entre nas urnas, depende sim da mobilização que haja nas ruas.

Se existem agora fortes possibilidades de despejar a extrema-direita da Casa Branca, isso não se deve a nenhum efeito galvanizante da candidatura de Biden, bem pelo contrário. Houve, por um lado, a gritante exposição de incompetência, de irresponsabilidade, de autismo político e de negligência criminosa de Trump perante a pandemia de Covid-19. Mas houve, sobretudo, na sequência do assassínio de George Floyd, a mais massiva e prolongada revolta de massas da história norte-americana.

As dezenas de milhões de pessoas que, em diversas cidades, mesmo da América rural e “profunda”, vieram para a rua protestar contra a violência policial desequilibraram subitamente, em desfavor de Trump, uma perspectiva eleitoral que até aí continuava a sorrir-lhe. Não vinham para a rua estragar-lhe a reeleição, mas contribuíam decisivamente para estragá-la. Não obedeciam ao calculismo eleitoral de Biden, mas faziam mais pela derrota de Trump do que qualquer campanha do aparelho democrata.

Tal como foi a luta contra a violência policial a inverter completamente a perspectiva da eleição presidencial, também terá de ser a mobilização extra-eleitoral a derrotar o golpe de Estado que Trump vem brandindo como ameaça.

Em que pode consistir esse golpe de Estado? As limitações ao exercício do direito de voto têm uma larguíssima tradição na História dos EUA. Uma delas consistiu sempre em impedir os presos de votarem. Como o sistema judicial norte-americano, perante um mesmo delito, condena muito mais negros do que brancos, o voto afro-americano tem de vencer dificuldades muito maiores. O abstencionismo, voluntário ou forçado, é muito maior na comunidade negra do que nas restantes.

Mas, como esta obstrução ao voto negro vem de trás, ela não bastaria, só por si, para se poder falar em golpe de Estado na eleição de 3 de novembro de 2020. O que há de novo, desta vez, é a profusão de milícias racistas — Proud Boys, Boogaloo, KKK e outras — armadas e protegidas pela polícia. Se a rua for deixada nas mãos dos “vigilantes” racistas, multiplicar-se-ão as provocações contra os negros que circularem no espaço público e, muito especialmente, nas imediações das assembleias de voto. Muitos ficarão em casa, por se sentirem inseguros na rua.

Apesar de ser conhecida a tendência geral das mulheres para votarem contra Trump, parece improvável que haja uma política das milícias para intimidarem mulheres brancas nesse dia – essa intimidação começará provavelmente antes, logo na esfera doméstica. Mas, no espaço público, as milícias racistas terão uma dupla motivação para tomarem as mulheres negras como alvo. 

O sexo, a cor da pele, o uso de máscara — numerosos sinais exteriores de provável anti-trumpismo — marcarão com uma cruz as pessoas que o terror fascistóide, se for deixado senhor das ruas, vai pressionar a ficarem em casa. Tudo depende portanto da presença massiva, organizada, visível e fortemente dissuasória que os manifestantes dos últimos meses saibam manter na rua em dia de eleições.

Depois, haverá a contagem dos votos e chegará o momento em que o golpe trumpiano deve tornar-se menos difuso e mais cirúrgico. Nos swing states, em que a relação de forças é mais equilibrada, assim que esteja iminente uma derrota de Trump, é de contar com ocupação de edifícios públicos e uma proclamação fraudulenta da vitória do presidente, ou então a anulação da contagem alegando a existência de fraude.

Também é de contar com golpes de mão audaciosos, para prender as autoridades estaduais pró-Biden e para proclamar a sua substituição por juntas provisórias, que usurpem sem contemplações o poder estadual. Para isso servia, como ensaio, o minigolpe do Michigan, com os planos de uma milícia de extrema-direita para raptar e julgar “por traição” a governadora democrata.

No momento do golpe propriamente dito, tudo vai depender de que os manifestantes antigolpistas tenham mantido a presença nas ruas durante o dia e tenham a determinação necessária para impedirem, por antecipação ou por rápida reacção, que sejam ocupados os centros de poder estadual e que, a partir daí, comecem a ser emitidas ordens, decretos e proclamações. Desses e dessas manifestantes depende que seja esmagada no ovo qualquer tentativa de proclamar o estado de sítio.

Activistas sindicais que têm discutido acaloradamente os diversos cenários possíveis no dia das eleições começaram entretanto a admitir o recurso à greve política de massas em caso de golpe de Estado. Contra essa medida inédita na história norte-americana pesa o tradicional reaccionarismo dos burocratas da central sindical AFL-CIO, para além da retórica que mesmo eles têm adoptado contra a ameaça golpista. Em caso de concretização dessa ameaça, veremos se núcleos activistas mais pequenos, intervindo na crise de forma resoluta, não se tornam o verdadeiro pólo aglutinador da resistência.

Há, sem dúvida, a grande incógnita que é o comportamento das forças militares e paramilitares não milicianas — polícia, Guarda Nacional e Exército. É lógico supor que a hierarquia do Pentágono, mesmo sem morrer de amores por Trump, vai sempre preferir a vitória do autogolpe trumpiano, e não a vitória de um grande movimento democrático que abalasse momentaneamente os pilares da sociedade burguesa.

Mas a escolha pode não ser tão simples: uma enérgica presença do movimento de massas em todos os momentos da jornada tornará claro para o Pentágono que a escolha é, afinal, entre a vitória do golpe e o início da guerra civil. E os polícias, não muito numerosos, que após o assassínio de Floyd se solidarizaram publicamente com Black Lives Matter poderão, numa situação de legalidade ambígua e duvidosa, passar a ter mais imitadores. E a Guarda Nacional, que foi sacudida por contestação interna ao reprimir manifestações pacíficas, tornar-se-ia uma incógnita ainda maior se fosse convocada para apoiar um golpe de Estado.

Pode nada disto suceder, se a mobilização das semanas e dias precedentes tornar claro que, ao fim de vários meses, continua em curso um processo de base, que não foi um breve clarão, esquecido entretanto. Essa evidência teria, só por si, um considerável poder dissuasório contra as veleidades golpistas.

O que não tem qualquer legitimidade é o apelo da campanha de Biden para que agora se passe da mobilização à votação. Por muitos votos que o desastrado candidato democrata consiga juntar, de nada servirão se o cretinismo eleitoral paralisar os e as manifestantes dos últimos meses e se os arruaceiros da extrema-direita dominarem as ruas antes, durante e depois de 3 de novembro.


Comentários dos leitores

Teresa Alves da Silva 25/10/2020, 17:16

O futuro da América depende da mobilização popular é a conclusão natural deste artigo.

Refere-se a previsão de vários e diferentes cenários, apontando realidades, como a existência de milícias de extrema direita, que decerto estarão preparando actuações para dissuadir fisicamente o voto e actuações posteriores ao voto,garantindo o sucesso do golpe de estado de Trump.

Tudo dependerá das massas populares anti golpistas, que em acções de rua tenham a força e a determinação para , antes e depois do voto,garantir que não seja declarado o estado de sitio e o avanço para confrontos do tipo guerra civil.

A pergunta que inquieta, é: os cidadãos americanos antitrumpismo têm consciência politica da necessidade de acção?.... e existe organização e poder das massas populares?

John Catalinotto 25/10/2020, 19:45

Obrigado pela apresentação do cenário possível dum golpe d estado do novo tipo Trumpiano. Mesmo pelos meus camaradas estadounidenses o artigo possa ajudar, e eu o traduce o artigo em ingles para mandar-o aos meus camaradas no Workers World para informar-os como os revolucionários portugueses vêem as eleições nos EUA.
Umas coisas importantes: mais o menos a metade dos votos sera por poste o tem feito antes do dia das eleições mesmo. Até 24 de Outubro, 51 milhões de pessoas já votaram. Acredito que a mais parte sejam contra o Trump. E precisa contar todos. Veo o voto como um referendo sobre o racismo. De verdade os dois partidos são imperialistas e contra os trabalhadores de todo o mundo. Precisamos lutar para defender a democracia e começar o proximo dia o movimento contra os dois representantes do capitalismo EUA.


Envie-nos o seu comentário

O seu email não será divulgado. Todos os campos são necessários.

< Voltar